terça-feira, 23 de agosto de 2011
O AMOR EM PAZ
Eu amei,
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais,
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz
(Vinícius de Moraes)
domingo, 21 de agosto de 2011
Morrer de amor
Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Nunca, sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de amar assim muito amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
SORRI
Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
(Charles Chaplin)
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
FAMÍLIA
Família é lago tranquilo !
Mas também mar agitado !
No qual é preciso ser forte,
Para não se morrer afogado !
Família é harmonia !
Mas também contradição !
Família é liberdade,
Mas também é opressão !
Em família, acima de tudo,
Deve o amor dominar !
Na qual todas ofensas,
Devemos saber perdoar !
Pois família é porto seguro
Não só para quem tem acertado !
Tem de sê-lo mais ainda,
Para quem andou errado !
Pois família é o salva-vidas,
De quem precisa de apoio !
Em família não é possível
Separar o trigo do joio !
Pois o joio é parte dela,
Tanto quanto é o trigo!
Que pode ser transformado
Se dele formos amigo !
Se tivermos confiança
E paciência de verdade,
Com aqueles que são jovens
E com os de mais idade !
Família vem da natureza
E também da sociedade!
Constituindo um conjunto
Cujo alimento, é a verdade !
Verdade que a preserva
No prazer e na dor !
Verdade que é contrapartida
De seu sangue ... que é o Amor !
Dulley
sábado, 30 de julho de 2011
Soneto do amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Poema aos Escritores Retos
Parabéns a todos os escritores
pelo dia de hoje!!!!
"Nunca conheci escritor confessadamente ruim.
Todos os meus conhecidos têm sido brilhantes em tudo.
E eu, tantas vezes preguiçoso, tantas vezes mal articulado,
Eu tantas vezes irrespondivelmente solitário,
Indesculpavelmente arrogante,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para puxar sacos,
Eu, que tenho sido invisível aos resenhistas de suplemento,
Eu, que tenho sentido os olhares superiores dos publicados,
Eu, que tenho feito vergonhas literárias, conjugado sem concordar,
Eu, que, quando a hora do debate surgiu, me tenho afastado
Para fora da possibilidade da porrada;
Eu, que tenho sofrido a angústia dos pequenos contos ridículos,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo literário.
Todo escritor que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um conto ruim, nunca sofreu de crônica apressada,
Nunca foi senão Shakespeare - todos eles Shakespeares - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não uma perseguição editorial, mas um fracasso próprio;
Que contasse, não uma rejeição injusta, mas uma merecida!
Não, são todos o Ideal, se os leio e de si falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez escreveu mal?
Ó Machados, meus irmãos,
Arre, estou farto de gênios da humanidade!
Onde é que há escritores medíocres no mundo?
Então só eu sou imaturo e despreparado nesta terra?
Poderão os editores não os terem publicado,
Podem ter sido rejeitados - mas por serem ruins nunca!
E eu, que tenho sido ignorado por justo merecimento,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido ruim, literalmente ruim,
Ruim, no sentido mesquinho e infame da ruindade literária".
Alex Castro
domingo, 17 de julho de 2011
Nasci assim...
Nasci com metas difusas
na tarde, amanhecidas,
em horizontes privisórios.
Pensar, pouco soube e, ao dizer,
maximizar resultados
em prol do prolixo do amor.
Mas haja vista, uma pista:
sei tabuada cantada
e da charge na revista.
Minhas ilusôes confusas
em roca de troça, tecidas,
são fios aleatórios
sílabas, vogais, fonemas,
onomatopaicos dilemas
vácuos tônicos de calor.
Vêm de um sotaque perdido
e d’ outro, não aprendido,
Remetem-me a purgatórios
de amor roto, partido
que, em falha de repertório,
morreu sem sequer ter nascido.
Elane Tomich
sábado, 16 de julho de 2011
Invictus
Do fundo desta noite que persiste,
A me envolver em breu-eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por minha alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa,
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
William E. Henley
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