quarta-feira, 24 de abril de 2013
Em que tempo?
Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular ideia de inventar a alegria?
Com outonos de ouro a inventaram.
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.
Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto
Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história
Como se esta já fora cinza na memória.
Jorge Luis Borges
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quinta-feira, 18 de abril de 2013
Sem remédio
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
quinta-feira, 11 de abril de 2013
VIDA SEM POESIA
Vida sem poesia
é vida vazia,
não traz sonho,
e nem alegria;
por isso proponho,
ponha no verso seu dia,
a dor e a saudade,
a música, a fantasia,
a beleza da flor,
a importância do amor,
a página virada,
a mágoa apagada,
a lágrima que secou,
da saudade que passou.
Poesia é sustento,
alimento da alma,
que traz acalento
do pranto sem palmas...
que a chama faz crescer
e faz o amor vencer.
Silvia Araújo Motta
sábado, 6 de abril de 2013
Ave Bravia
Sentimento perdido
Num sonho esquecido
Sou ave que voa rasando
Num mar infinito
Mar tempestuoso
De vagas bravias
Atrasando o meu vôo
No vento perdido
Debatendo-me com força
Luto para seguir
Só quero fugir
Desta tempestade
Agito-me assim
Bato as asas sem parar
Quero ir mais longe
E o Sol alcançar
Sou ave bravia
Sou força, coragem
Sou vida sofrida
Sou luz no olhar
Vôo no infinito
Luto por sonhar
Sou ave bravia
Sou esperança no andar
(Katarina Madeira)
terça-feira, 26 de março de 2013
De Repente
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
(Vinícius de Morais)
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Vinicius de Moraes
sexta-feira, 22 de março de 2013
ANÍMICO
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
Adélia Prado
segunda-feira, 18 de março de 2013
AMIZADE VIRTUAL
"Amizade...
Pode ser virtual,
pode ser pessoal,
Não importa!
O carinho de amigo
é sempre real...
Não importa
se nunca nos vimos
frente a frente,
mas somos leais e coerentes...
Somos amigos pra sempre.
O carinho de uma amizade
não tem distância...
ela vem por linhas,
vem através da nossa telinha
e pelos olhos
de quem tem
a felicidade de enxergar...
Amizade Verdadeira existe sim.
Basta a gente acreditar e fazer acontecer!"
(Bruno Bezerra)
quinta-feira, 14 de março de 2013
HOMENAGEM AO DIA DA POESIA
À Poesia...
Tu és senhora
Eu sou cativa
Tu me comandas
Eu obedeço
Tu és abrigo
Eu, inquilina...
Tu és semente
Eu sou o solo
Tu és raiz
Eu sou o adubo
Tu és eterna
Eu, passageira...
Tu és a rosa
Eu sou o espinho
Tu és o ovo
Eu sou o ninho
Tu és a máscara
Eu sou a face
Tu és mistério
Eu, revelação...
Dan
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terça-feira, 12 de março de 2013
EU
Sou só e sou eu mesma. O que pensem e digam
os demais, nada importa; eu tenho a minha lei.
Que outros a multidão, covardemente, sigam,
pelo caminho oposto, altiva, eu seguirei.
Que, sem brio e vergonha, outros tudo consigam
e que zombem de mim porque nada alcancei;
quanto mais, com seu ódio, o meu nome persigam,
tanto mais orgulhosa em trazê-lo, serei.
Às pedradas não fujo e as tormentas aceito;
mas a espinha não curvo em prol de algum proveito,
minha atitude sempre a mesma se revela;
A mim mesma fiel, a minha fé não traio;
e, se em dia fatal ferida pelo raio
tombar minha bandeira eu tombarei com ela!
(Adelaide (Yde) Schloenbach Blumenschein)
sábado, 2 de março de 2013
Querer
Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.
(Pablo Neruda)
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